domingo, 2 de setembro de 2007

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O Positivismo de Comte e Durkheim e a Crítica Marxista

Método

7. O Positivismo de Comte e Durkheim e a Crítica Marxista
Contudo, Comte e Durkheim são pensadores positivistas. Ambos acreditam que a sociedade possa ser analisada da mesma forma que os fenômenos da natureza. A sociologia tem, assim, como tarefa, o esclarecimento de acontecimentos sociais constantes e recorrentes. O papel fundamental da sociologia seria o de explicar a sociedade para manter a ordem vigente.
Na clara síntese de Michel Löwy, o tipo ideal de positivismo pode ser dito em três idéias principais:
· a primeira é a hipótese fundamental do positivismo: "a sociedade humana é regulada por leis naturais", leis invariáveis, independentes da vontade e da ação humana, como a lei da gravidade ou do movimento da terra em torno do sol, de modo que na sociedade reina "uma harmonia semelhante à da natureza, uma espécie de harmonia natural".
· dessa primeira hipótese decorre, para o positivismo, a conclusão epistemológica de que "a metodologia das ciências sociais tem que ser idêntica à metodologia das ciências naturais, posto que o funcionamento da sociedade é regido por leis do mesmo tipo das da natureza".
· a terceira idéia básica do positivismo, talvez a de maior conseqüência, reza que "da mesma maneira que as ciências da natureza são ciências objetivas, neutras, livres de juízos de valor, de ideologias políticas, sociais ou outras , as ciências sociais devem funcionar exatamente segundo esse modelo de objetividade científica". Ou seja: o positivismo "afirma a necessidade e a possibilidade de uma ciência social completamente desligada de qualquer vínculo com as classes sociais, com as posições políticas , os valores morais, as ideologias, as utopias, as visões de mundo", pois este conjunto de opções são prejuízos, preconceitos ou prenoções que prejudicam a objetividade das Ciências Sociais"[21].
Entretanto, o marxismo dá um passo a mais: o conhecimento da realidade social é um instrumento político que pode orientar os grupos sociais na luta pela transformação da sociedade. É no terreno da prática que se deve demonstrar a verdade da teoria.
Na segunda de suas onze teses contra Feuerbach, de 1845, diz Karl Marx (1818-1883): "A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento". Para concluir na última tese: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo"[22].
Vista por este ângulo, a função da sociologia não é o restabelecimento da ordem social ou a determinação das normas do bom funcionamento da sociedade, como dizem os positivistas. Ela deve, antes de tudo, contribuir para a mudança social. É aí que reside sua função crítica, na medida em que apóia os movimentos de transformação da ordem existente.
Com isto, já conseguimos definir o discurso sociológico em relação à história como aquele que não se limita a descrevê-la como uma sucessão de fatos e acontecimentos, mas como um conjunto de situações, de normas, de usos, de instituições.
Mais ainda, nas palavras do exegeta alemão Gerd Theissen, as questões sociológicas “ganham significação central também onde se busca clarear as grandes transformações da história, suas revoluções e crises, declínios e renascimentos, em ligação com as tensões estruturais”[23].
Assim foi que, de 1830 às primeiras décadas de nosso século, se consolidaram os principais métodos e conceitos sociológicos[24].
Por outro lado, a existência de interesses opostos e conflitantes na sociedade se manifesta igualmente no pensamento sociológico. Há diferentes tradições sociológicas e modos diversos de entender o papel da religião na sociedade. Os especialistas costumam dizer, certamente com alguma simplificação, que as diversas sociologias podem ser reconduzidas a três tendências básicas: funcionalista, compreensiva e marxista.
8. A Sociologia Funcionalista
A sociologia funcionalista é hoje uma das mais difundidas nas sociedades capitalistas, em primeiro lugar nos Estados Unidos. O pensamento de Émile Durkheim foi retomado e desenvolvido especialmente por dois sociólogos americanos, Robert K. Merton e Talcott Parsons, sem dúvida os maiores responsáveis pelo desenvolvimento do funcionalismo moderno.
Na opinião de Peter Berger, “Robert K. Merton, da Universidade de Colúmbia, representa, juntamente com Talcott Parsons, de Harvard, o mais destacado teórico da sociologia americana contemporânea. A análise de Merton sobre as funções ‘manifesta’ e ‘latente’, bem como outras exposições importantes do que ele considera ser a abordagem funcionalista da sociedade, será encontrada em seu livro Social Theory and Social Structure, Chicago, Free Press, 1957”[25]. Funções manifestas são as funções conscientes e deliberadas dos processos sociais, enquanto que as funções latentes são inconscientes e involuntárias. Um exemplo dado por Berger nos ajuda a entender a distinção: "Missões cristãs em certas partes da África tentaram 'manifestamente' converter os africanos ao cristianismo, mas ajudaram 'latentemente' a destruir as culturas tribais, proporcionando condições para rápida transformação social"[26].
O funcionalismo, ao analisar qualquer elemento de um sistema social, procura saber de que maneira este elemento se relaciona com os outros elementos do mesmo sistema social e com o sistema social como um todo, para daí tirar as conseqüências que interferem no sistema, provocando sua disfunção, ou, por outro lado, contribuem para a sua manutenção, sendo, portanto, funcionais.
Estes conceitos foram desenvolvidos a partir do pensamento de Durkheim, que, como vimos, se esforçou para mostrar a existência própria e independente dos fatos sociais em relação aos indivíduos particulares. Durkheim chamou de consciência coletiva as formas padronizadas de conduta e de pensamento que se observa no interior de um grupo social: "Sem dúvida, é evidente que nada existe na vida social que não esteja nas consciências individuais; mas, quase tudo que se encontra nestas últimas vem da sociedade. A maior parte de nossos estados de consciência não seriam produzidos pelos indivíduos isolados, mas seriam produzidos pelos indivíduos agrupados de outra maneira. Eles derivam, portanto, não da natureza psicológica do homem em geral, mas da maneira segundo a qual os homens, uma vez associados, interagem mutuamente, dependendo de serem mais ou menos numerosos, de estarem mais ou menos próximos. Sendo produtos da vida em grupo, somente a natureza do grupo pode explicá-los"[27].
Citando ainda uma vez Peter Berger: "Segundo a perspectiva durkheimiana, viver em sociedade significa existir sob a dominação da lógica da sociedade. Com muita freqüência, as pessoas agem segundo essa lógica sem o perceber. Portanto, para descobrir essa dinâmica interna da sociedade, o sociólogo terá muitas vezes de desprezar as respostas que os próprios atores sociais dariam a suas perguntas e procurar as explicações de que eles próprios não se dão conta. Esta atitude essencialmente durkheimiana foi levada à abordagem teórica hoje chamada de funcionalismo. Na análise funcional, a sociedade é analisada em termos de seus próprios mecanismos como sistema, e que muitas vezes se apresentam obscuros ou opacos àqueles que atuam dentro do sistema"[28].
Segundo o pensamento de Durkheim, a função da sociologia “seria a de detectar e buscar soluções para os ‘problemas sociais’, restaurando a ‘normalidade social’ e se convertendo dessa forma numa técnica de controle social e de manutenção do poder vigente”, explica C. B. MARTINS[29].
Com efeito, no início do segundo capítulo de seu livro As regras do método sociológico, E. Durkheim define seu princípio metodológico fundamental: "A primeira regra e a mais fundamental é a de considerar os fatos sociais como coisas". Para acrescentar mais adiante, neste mesmo capítulo: "De fato, Comte proclamou que os fenômenos sociais são fatos naturais, submetidos a leis naturais. Reconheceu, assim, o seu caráter de coisas, visto que na natureza só há coisas"[30].
Michel Löwy observa que esta abordagem de Durkheim é perfeitamente homóloga à desenvolvida pela economia política burguesa e explica: "É aqui que provavelmente se encontram as raízes do naturalismo positivista enquanto discurso ideológico típico da nova ordem industrial (burguesa)". E, citando Durkheim, no texto La science et l'action, Paris, PUF, 1970, pp. 80-81, Michel Löwy acrescenta que "o próprio Durkheim apresenta a economia política como precursora da démarche positivista nas ciências sociais: 'Os economistas foram os primeiros a proclamar que as leis sociais são tão necessárias como as leis físicas. Segundo eles, é tão impossível a concorrência não nivelar pouco a pouco os preços... como os corpos não caírem de forma vertical.... Estenda este princípio a todos os fatos sociais e a sociologia estará fundada' "[31].
Ainda citando Durkheim, M. Löwy mostra que "desde os seus primeiros escritos em 1867, o pensamento de Durkheim exprime com precisão, clareza, coerência e rigor exemplares esta nova função social: 'É ainda ao professor de filosofia que cabe despertar nos espíritos que lhe são confiados a idéia do que é uma lei; de lhes fazer compreender que os fenômenos físicos e sociais são fatos como os outros, submetidos a leis que a vontade humana não pode interromper à sua vontade, e que, por conseqüência, as revoluções no sentido próprio do termo são coisas tão impossíveis como os milagres' "[32].
Finalmente, diz Löwy: "Entre as leis naturais da sociedade que seria vão, utópico, ilusório - em uma palavra: anticientífico - querer 'interromper' ou transformar, Durkheim situa com destaque a desigualdade social"[33]. Os argumentos estão na obra Da divisão do trabalho social, de 1893: as sociedades "são constituídas, não por uma repetição de segmentos semelhantes e homogêneos, mas por um sistema de órgãos diferentes, onde cada um tem um papel particular, sendo eles mesmos formados de partes diferenciadas". Isto é absolutamente normal, pois se encontra em qualquer organismo, como, por exemplo, "nos animais, [onde] a predominância do sistema nervoso sobre os outros sistemas se reduz ao direito, se se pode falar assim, de receber um alimento mais seleto e de receber sua parte antes dos outros"[34]. E ainda: "Pois, se nada entrava ou nada favorece injustamente os concorrentes que disputam entre as tarefas, é inevitável que apenas os que são os mais aptos a cada gênero de atividade a alcancem"[35].
O próprio Durkheim não faz segredo do conservadorismo do seu método positivista: "O nosso método não tem, portanto, nada de revolucionário. É até, num certo sentido, essencialmente conservador, uma vez que considera os fatos sociais como coisas cuja natureza, por mais elástica e maleável que seja, não é, no entanto, modificável à nossa vontade"[36].
Lendo esta afirmação, Michel Löwy chega, finalmente, ao âmago do problema quando diz que é inútil ficar discutindo, como o fazem alguns sociólogos hoje, quais são os elementos formais e doutrinários do conservadorismo de Durkheim: o seu problema está "na sua própria concepção do método. É seu método positivista que permite legitimar constantemente, através de argumentos científico-naturais, a ordem (burguesa) estabelecida". Isto lhe possibilita passar "sem hesitação das leis da seleção natural às 'leis naturais' da sociedade, e dos organismos vivos aos 'organismos sociais'". O apoio para este enfoque? "A homogeneidade epistemológica dos diferentes domínios e, por conseqüência, das ciências que os tomam como objeto"[37].
Raymond Aron, escrevendo em 1966, olha com desgosto para a sociologia funcionalista americana, herdeira deste pensamento, e classifica-a como essencialmente analítica e empírica. Multiplicando questionários para saber como vivem os homens em sociedade, transformando-se, deste modo, em mera sociografia, caricatura de uma autêntica ciência social, ela deixa de ser crítica, no sentido marxista do termo, não questionando a ordem social nos seus traços fundamentais e admitindo implicitamente a visão de mundo da sociedade norte-americana[38].
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[21]. LÖWY, M., Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista, São Paulo, Cortez, 1985, pp. 35-36; cf. Idem, As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. Marxismo e Positivismo na Sociologia do Conhecimento, São Paulo, Busca Vida, 1987, pp. 17-18.
[22]. MARX, K., Teses sobre Feuerbach, em MARX, K. & ENGELS, F., Obras escolhidas, Tomo I, Lisboa, Avante, 1982, pp. 1-3.
[23]. THEISSEN, G., Sociologia da cristandade primitiva. Estudos, São Leopoldo, Sinodal, 1987, p. 9.
[24]. Cf. ARON, R., As etapas do pensamento sociológico, onde este autor diz que "tendo partido em busca da sociologia moderna, cheguei, de fato, a uma galeria de retratos individuais (p. 11). Raymond Aron divide estes 7 "retratos" em dois grupos: os fundadores, que são, no seu entender, Montesquieu, Comte, Marx e Tocqueville e a geração da passagem do século, constituída por Durkheim, Pareto e Weber. [25]. BERGER, P., Perspectivas sociológicas. Uma visão humanista, Petrópolis, Vozes, 19899, p. 197. Merton nasceu em 1910.
[26]. Idem, ibidem, p. 51. Allan G. Johnson, em Dicionário de Sociologia. Guia Prático da Linguagem Sociológica, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997, verbete Merton, Robert, K., observa que "sua dissertação de doutorado sobre o desenvolvimento da ciência no século XVII é em geral creditada por ter provocado uma grande mudança nos métodos sociológicos de estudar a ciência, que influencia desde então o trabalho nesse campo". Sua tese tem por título Science, Technology and Society in Seventeenth-Century England, e data de 1938.
[27]. DURKHEIM, E., De la division de travail social, Paris, PUF, 1960, p. 342 ou em http://gallica.bnf.fr/Fonds_Frantext/T0088267.htm, p. 342.
[28]. BERGER, P., Perspectivas sociológicas. Uma visão humanista, pp. 50-51.
[29]. MARTINS, C. B., O que é sociologia, p. 50.
[30]. DURKHEIM, E., As regras do método sociológico, pp. 94 e 96.
[31]. LÖWY, M., As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen, p. 26.
[32]. Idem, ibidem, p. 27. Löwy cita o texto de DURKHEIM, E., La philosophie dans les Universités Allemandes, 1866-67, em Textes 3, Fonctions sociales et institutions, Paris, Ed. de Minuit 1975, p. 485. Esta é também a perspectiva funcionalista de Peter Berger, em Perspectivas sociológicas. Uma visão humanista, p. 58, quando diz que "a percepção sociológica é refratária a ideologias revolucionárias, não porque traga consigo alguma espécie de preconceito conservador, e sim porque ela enxerga não só através das ilusões do status quo atual como também através das expectativas ilusórias concernentes a possíveis futuros, sendo tais expectativas o costumeiro alimento espiritual dos revolucionários. Em nossa opinião, essa sobriedade não-revolucionária e moderadora da sociologia é altamente valiosa".
[33]. LÖWY, M., As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen, p. 27.
[34]. DURKHEIM, E., De la division de travail social, pp. 157-158.
[35]. Idem, ibidem, pp. 369-370.
[36]. DURKHEIM, E., As regras do método sociológico, em o. c., p. 74.
[37]. LÖWY, M., As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen, p. 29. O sublinhado no texto é de Michel Löwy.
[38]. Cf. ARON, R., As etapas do pensamento sociológico, pp. 4-5. E na p. 6 ele diz: "Os norte-americanos são reformistas quando se trata de sua própria sociedade e, implicitamente pelo menos, com relação a todas as sociedades".

Sociólogo Florestan Fernandes

PRESENÇA DE FLORESTAN FERNANDES

Florestam um sociólogo comprometido com seu tempo

Boaventura de Souza Santos

SENHOR REITOR, senhor ministro da Cultura, senhor representante do governo do estado de São Paulo, colegas da mesa e do auditório, senhoras e senhores. Se já me sentia pequeno aqui nesta mesa, ao lado de colegas que conheceram e privaram de perto com o professor Florestan, que se beneficiaram da sua liderança intelectual, do seu companheirismo e cumplicidade política, mais pequeno me sinto agora, eu que venho de outro país, depois desta magnifica e fascinante narrativa do professor Antonio Candido.
O facto pelo qual aqui estou deve-se a uma razão menor que, afinal, talvez não seja tão pequena, nomeadamente em termos de lógica das instituições. A minha única legitimidade para estar aqui, é apenas o facto de eu ter tido a honra de ser o padrinho do professor Florestan Fernandes na atribuição do grau de Doutor Honoris Causa pela minha universidade, em 1990.
Numa universidade com 700 anos, o professor Florestan Fernandes foi o primeiro Doutor Honoris Causa em sociologia. Sinto muita honra por estar associado a essa iniciativa de grande simbolismo, na qual está implícita a tentativa de aproximar em novos termos as comunidades científicas do Brasil e de Portugal. Sem esquecer o que de bom e mau houve no nosso passado comum, temos de levar em conta, neste momento, o futuro que está à nossa disposição.
Talvez por isso, apetecia-me agora lembrar um dos ditos conhecidos de Saint Simon. Como sabem, Saint Simon fez varios projectos utópicos de sociedade. Achava que a sociedade do futuro deveria se organizar segundo dois tipos de festas – as festas da lembrança c as festas da esperança. As da lembrança cram festas que a sociedade necessitava para criar os seus ancestros, as suas autoridades, as suas tradições, os seus costumes, e dar-lhes um sentido de raízes. As da esperança, ao contrário, eram testas que a sociedade deveria organizar para as novas gerações, para lhes abrir novos campos, novos horizontes, novas opções e permitir que seguissem sozinhos a marca do seu tempo.
Gostaria de ver esta cerimônia, não como uma festa da lembrança, mas como uma lesta da esperança. E acho que, neste caso, para mim, que tive um contacto tardio, mas importante, com o trabalho de Florestan, vale a pena salientar que a marca de excelência de um sociólogo reside em ele saber ser sociólogo dás suas circunstâncias: saber assumir o seu tempo, assumi-lo criticamente naquilo que ele tem de emergente e de futurante. Penso que Florestan Fernandes fez isso com audácia, com qualidade, com eloqüência e com brilho inexcedíveis.
É esta assunção das circunstâncias, o saber lê-las e saber tirar delas o futuro, que penso ser o grande legado deixado por Florestan. Legado que não reside tanto nas suas teorias e metodologias, mas no modo como, através dele, aprendemos a ler criticamente – descomprometida mas comprometidamente, isto é, com independência e com objectividade mas sem neutralidade – o nosso tempo, as circunstâncias que nos rodeiam e tão diferentes são daquelas que Florestan viveu. Portanto, essa capacidade de voar que penso que Florestan nos deu é que gostaria muito de salientar aqui.
Se o analisarmos nessa perspectiva, concluiremos naturalmente que em termos metodológicos, nem tudo em Florestan é actual. Se quisermos hoje ser florestanianos, temos de ir contra alguns dos textos de Florestan, sem dúvida muito importantes no momento e no contexto em que foram escritos. E porque foram eles importantes? Penso – e agora, depois de ouvir o professor Antônio Cândido, fiquei perfeitamente seguro dessa minha convicção – ele quis realmente fundar um discurso novo sobre a sociedade brasileira. Uma nova racionalidade, um novo pensamento, um novo critério científico, que de alguma maneira não fosse o daqueles, a que Carlos Guilherme Mota chamou, recordando um texto do próprio Florestan, "intérpretes falando da varanda". Esta nova racionalidade e este novo rigor são muito importantes como instrumentos de luta contra o pensamento mítico desenvolvido pelas elites sobre as nossas sociedades. Florestan empreendeu esta luta com muito rigor e com muita força.
Para o fazer, Florestan assumiu um critério, uma postura científica e epistemológica, que talvez pudesse hoje se considerar positivista, ainda que não empiricista, isto porque ele mostrou, e o fez muito cedo e de forma notável nos seus textos epistemológicos e teóricos, que há um comando da teoria, mas que essa teoria tem de ser representativa do real, tem de ter o rigor de um modelo científico universal. Florestan acreditava na possibilidade de um modelo científico universal. Acreditamos nós hoje nele? Provavelmente não acreditamos, ou não acreditamos da mesma forma. Vivemos numa outra época, num outro tempo, talvez sejamos mais indisciplinados porque nos confrontamos com outras circunstâncias temporais e históricas nos nossos países e no próprio desenvolvimento científico. Tudo isto, talvez nos obrigue a assumir outra postura epistemológica que, no entanto, tem como fundamento o mesmo apelo que moveu Florestan, ou seja, o de responder às circunstâncias do seu tempo.
Acho que isso é fundamental, sobretudo se ao analisarmos os seus textos tivermos em conta uma dimensão de que se fala muito na sociologia actual: a reflexividade. A teoria sociológica hoje é reflexiva, a modernidade é reflexiva, a pós-modernidade é reflexiva. Florestan é, desde os seus primeiros livros, um autor reflexivo. Pelo menos foi assim que eu o li, e admito que os colegas brasileiros o tenham lido de modo distinto. Essa reflexividade vai aumentando nos seus escritos, à medida que vai perdendo o gosto ou ficando desencantado com a possibilidade de, como sociólogo, utilizar a engenharia social para transformar a realidade. Gabriel Cohn, num importante texto sobre Florestan, salientou tal facto quando referiu que o seu problema foi o de querer constituir cientificamente uma sociedade, um conhecimento sobre a sociedade, quando o poder parece tão refractário às idéias científicas. Portanto, essa é a missão que ele cumpre, olhando muito o seu contexto – como também a professora Maria Arminda Arruda, noutro texto importante salientou: "contexto social em que emerge e do qual procura desenvolver um conhecimento novo".
A nossa responsabilidade é responder à nossa circunstância, tal como Florestan respondeu à sua. Com pluralismo, talvez com um pouco mais de tolerância discursiva e com mais interdisciplinaridade, que de alguma maneira ele praticou desde cedo, mas sobre a qual não quis reflectir muito. Hoje encontramo-nos perante um processo de transdisciplinaridade, talvez porque a sociedade na qual nos localizamos nos apele a isso mesmo. Mas é curioso ver que, de alguma maneira, os fantasmas com os quais ele teve de lutar, os seus inimigos, são ainda hoje os nossos fantasmas e inimigos. Em texto de um curso de férias de 1950, Florestan diz aos estudantes que a sociologia tem de se constituir contra dois vieses: de um lado a cosmologia popular, do outro lado o socialismo. É estranho que ele coloque assim a questão. Segundo ele, o socialismo só muito brevemente teve uma constituição científica. À medida que se transformou em doutrina perdeu essa constituição e Florestan vê a sua tarefa como a de refundar essa cientificidade, com um grau de exigência que não vê qualquer conflito entre, como dizia o professor Antonio Candido, a sociologia convencional, as técnicas de rigor científico e, por outro lado, essa nova abertura a uma militância, digamos assim política, que ele quis também instaurar.
Penso que nós hoje vivemos muito essa circunstância. Ou seja, não podemos ser cientistas sociais sem a exigência de cidadania, e essa foi cada vez maior em Florestan. De alguma maneira podemos dizer que ele talvez não tenha conseguido compatibilizar exactamente a exigência científica com a política. Ou seja, a política bateu-lhe à porta com demasiada violência para as luvas brancas da ciência e ele teve que responder a soco, teve que responder com muita frontalidade e rigor. Frontalidade e rigor que eram as únicas armas com as quais ele podia lutar contra quem usava golpes baixos para destruir o conhecimento e a tradição democrática que entretanto aqui se ia instituindo.
Penso portanto que, tal como Florestan o fez, é possível se ser, numa sociedade de classes e subdesenvolvida, rigoroso sem ser descomprometido; que é possível o entusiasmo e a cidadania, mantendo, no entanto, a lucidez dos instrumentos e quiçá também os limites desses instrumentos. Diz Florestan que "o cientista escrupulosamente 'neutro' pode ser tão revolucionário quanto o cientista abertamente 'comprometido'. Contudo, o primeiro não desenvolve a sensibilidade para os problemas de investigação que se impõem em termos de atualidade ou de necessidade histórica. O segundo, ao contrário, está continuamente imerso no fluxo dos acontecimentos que possuem significado fundamental para a colectividade – tanto na superação do passado, quanto na construção do presente e do futuro".
É exactamente este sociólogo, comprometido com o seu tempo, com o entusiasmo das lutas sociais e com o sofrimento que elas produzem também nas populações, que Florestan, sem perder o sentido dos seus instrumentos, das suas teorias, do conhecimento e dos seus limites, dá uma lição que, para as gerações futuras, é absolutamente impescindível. Naturalmente que ele viveu um tempo diferente do nosso; se ele hoje fundasse uma faculdade, não tenho dúvidas de que o faria de maneira diferente do que fez na sua época. Mas porque? Porque ele trabalha de acordo com a sua metodologia e constitui os seus objectos de pesquisa no momento em que há uma grande coerência entre o modelo organizacional e a metodologia e a tecnologia do conhecimento que estão instauradas. Nesse momento, a sociologia e as ciências sociais têm uma metodologia que de alguma maneira é coerente com a sua organização institucional. Ambas apelam à disciplinaridade, ambas aspiram à contenção de equilíbrios institucional, metodológico e estrutural. Contudo, hoje vivemos em instituições falidas, instituições como as universidades nas quais nós não cabemos, pois o nosso conhecimento extravasa delas, muito mais indisciplinado do que as disciplinas que o procuram conter. Temos de refundar a universidade e o saber e eu penso que só o conseguiremos se soubermos ser sociólogos das nossas circunstâncias tão bem quanto Florestan Fernandes o soube ser das suas.


Boaventura de Souza Santos é diretor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal. Transcrição da intervenção oral, revista pelo autor, feita no Ato Presença de Florestan Fernandes, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados na Sala do Conselho Universitário da USP em 5 de outubro de 1995. .

Filosofia e sociologia no ensino médio em 2008

Escolas incluirão filosofia e sociologia no currículo a partir de 2008 21 de agosto de 2007.
BRASÍLIA - O prazo para que as secretarias estaduais de Educação de todo o país estipulem medidas de implantação das disciplinas filosofia e sociologia no currículo do ensino médio terminou hoje (21). O plano deve ser aplicado a parir de 2008.Segundo representantes do Ministério da Educação (MEC), cada escola terá autonomia para ensinar as disciplinas de acordo com a realidade dos alunos. O ministério distribuirá livros didáticos. Como o ensino médio é de responsabilidade dos Estados, caberá aos conselhos de Educação estaduais a fiscalização da implantação das novas disciplinas.A resolução que instituiu as novas disciplinas foi publicada em 21 de agosto de 2006.TM

Fonte: Agência Brasil - TM
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Código de ética do Sociólogo

Códigos de ÉTICA
CÓDIGO DE ÉTICA DO SOCIÓLOGO
Título I
Disposições gerais
Art. 1 - O Sociólogo na sua atuação profissional está obrigado à observância do presente Código, bem como a fazê-lo cumprir.
Art. 2 - Compete aos Sociólogos, Sindicatos, Associações Profissionais e à Federação Nacional zelar pelo seu cumprimento e sua divulgação.
Título II.
Dos Princípios Éticos e Fundamentais
Art. 3 - O compromisso fundamental do Sociólogo é o de interpretar a realidade dos fatos e das relações sociais através da aplicação de métodos científicos e técnicas sociológicas, buscando contribuir, a partir desses estudos, sua aplicação e divulgação para melhorar a qualidade de vida socio-ambiental da humanidade.
Art. 4 - O compromisso com a produção de informações com base científica a respeito da realidade social e sua divulgação pública precisa e correta é um direito inerente à condição atual de vida em sociedade, é um direito do cidadão que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse, é uma obrigação social que o Sociólogo deve assumir e defender.
Art. 5 - O Sociólogo tem o compromisso de lutar pelo exercício da soberania popular e auto-determinação dos povos em seus aspectos políticos econômicos e sociais.
Art. 6 - O Sociólogo tem o compromisso de opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Título III
Dos Direitos e Deveres do Sociólogo
Capítulo I - Dos Direitos
Art. 7 - São direitos dos Sociólogos
a) Garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas estabelecidas na Lei de Reconhecimento da Profissão e neste Código;
b) Livre exercício das atividades inerentes à profissão;
c) Participar das entidades representativas e sindicais da categoria;
d) Propiciar ou realizar a investigação da realidade social a partir de critérios científicos e metodologia adequada que garantam a credibilidade e defesa pública quanto ao resultado do trabalho:
e) Propiciar a divulgação de informações resultantes de seus trabalhos e estudos que sejam de interesse público e possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida;
f) Garantir que a divulgação pública dos resultados de pesquisas e de outros trabalhos se dê de forma precisa sem omissão ou alteração de dados que prejudiquem os resultados bem como respeitar normas de citação de fontes, autores e colaboradores:
g) Garantir a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos:
h) Recusar empregos, tarefas ou atribuições que comprometam a dignidade do exercício da profissão bem como recusar substituir colegas exonerados ou demitidos por defender os princípios e normas deste Código:
i) Receber remuneração por seu trabalho profissional garantindo o piso salarial da categoria, os valores delimitados nos contratos coletivos de trabalho e dissídios coletivos, a equivalência com outros profissionais de nível superior nos planos de cargos e salários dos órgãos públicos ou, no caso de atividade autônoma, os valores mínimos definidos por entidades representativas da categoria:
j) Denunciar aos órgãos competentes sempre que leigos estiverem no exercício ilegal da profissão ou lidem com resultados de pesquisa ou investigações sociológicas sem os critérios devidos:
l) Receber desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional:
m) Apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria:
n) Denunciar a agressão e abuso de autoridades às organizações da categoria aos órgãos competentes.
o) Ter acesso às oportunidades de aprimoramento profissional.

Capítulo II
Dos Deveres

Art. 8 - São deveres do Sociólogo:
a) Desempenhar suas atividades profissionais observando a legislação em vigor:
b) Conhecer, cumprir, divulgar e fazer cumprir este Código:
c) Valorizar e dignificar a profissão bem como defender seu livre exercício:
d) Prestigiar as entidades representativas da categoria na defesa de seus direitos: as entidades científicas no aprimoramento das Ciências Sociais e as entidades democráticas na defesa da liberdade de expressão e da justiça social:
e) Combater e denunciar formas de corrupção e manipulação de informações, em especial quando comprometam o direito público da veracidade dos fatos, as ações políticas dos cidadãos e a justiça, e o favorecimento pessoal ou de grupos;
f) Combater a prática da perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais ou juízo subjetivo, bem como defender o respeito ao direito à privacidade do cidadão;
g) Recusar e denunciar o desenvolvimento de pesquisas ou divulgação de seus resultados, quando houver manipulação nos critérios da metodologia científica e das normas internacionais, quando visar interesse ou favorecimento pessoal ou de grupos, com vantagens políticas ou econômicas, ou quando forem contrários aos valores humanos.
h) Ao atuar junto às instituições, responsabilizar-se por suas ações no sentido de contribuir para o desenvolvimento de seus objetivos, de acordo com os princípios e normas deste Código;
i) Responder pelas informações resultantes de estudos e pesquisas bem como pelas intervenções, assessorias e orientações desenvolvidas, desde que o trabalho em questão não tenha sido alterado por terceiros;
j) Não ser conivente com erros, faltas éticas ou morais, crimes ou contravenção de serviços profissionais;
l) Na realização de estudos e pesquisas, respeitar a dignidade de pessoas e grupos envolvidos nos trabalhos aos quais devem ser informados sobre os riscos e resultados previsíveis da sua informação e participação;
m) Procurar viabilizar a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos;
n) Denunciar às autoridades e órgãos competentes as coações e agressões físicas e morais sofridas no exercício da profissão;
o) Aprimorar de forma contínua os seus conhecimentos, colocando-os a serviço do fortalecimento da organização e consciência da sociedade.
p) Pagar regularmente suas obrigações com as entidades profissional às quais for associado.
Capítulo III
Do sigilo profissional
Art. 9 - O Sociólogo deve observar o sigilo profissional sobre todas as informações confiadas e/ou colhidas no exercício profissional.
Parágrafo 1 - A quebra do sigilo só é admissível quando se tratar de situação cuja gravidade possa trazer prejuízo aos direitos humanos.
Parágrafo 2 - A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devem tomar conhecimento.
Art. 10 - É vedado ao Sociólogo revelar sigilo profissional.
bsp; Parágrafo único - Intimado a prestar depoimento, deverá o Sociólogo comparecer perante a autoridade competente para declarar que está obrigado a guardar sigilo profissional, nos termos do Código Civil e deste Código.
Título IV
Das Relações Profissionais
Capítulo I
Das relações profissionais com as instituições
Art. 11 - São direitos dos Sociólogos:
a) Ter condições adequadas de trabalho, respeito a autonomia profissional e dos princípios éticos estabelecidos neste Código;
b) Denunciar falhas nos regulamentos, normas e programas de instituições em que trabalha quando os mesmos ferirem os princípios e direitos contidos neste Código;
c) Recorrer às entidades representativas da categoria, ao nível estadual e nacional, contra decisões ou omissões da instituição diante de denúncias referidas no inciso anterior.
Art. 12 - É vedado ao Sociólogo:
a) Adotar determinação que fira os princípios e diretrizes contidas neste Código, ao prestar serviço incompatível com as diretrizes da regulamentação profissional;
b) Emprestar seu nome a firmas, organizações ou empresas que utilizem métodos e técnicas das ciências sociais sem seu efetivo exercício profissional;
Capítulo II
Das relações profissionais entre Sociólogos
Art. 13 - Cabe aos Sociólogos manter entre si a solidariedade que consolida e fortalece a organização da categoria
Art. 14 - O Sociólogo, quando solicitado, deverá colaborar com seus colegas, salvo impossibilidade real, decorrente de motivos relevantes.
Art. 15 - A crítica pública ao trabalho profissional de outro Sociólogo deverá ser sempre comprovável, de inteira responsabilidade de seu autor e fundamentada nos preceitos deste Código.
Art. 16 - É vedado ao Sociólogo:
a) Ser conivente com falhas éticas e com erros praticados por outro profissional;
b) Prejudicar deliberadamente a reputação de outro profissional divulgando informações falsas;
c) Prevalecer-se de posição hierárquica para publicar em seu nome trabalho de subordinado, mesmo que executado sob sua orientação, sem citar as fontes e os colaboradores;
d) Deturpar dados quantitativos e qualitativos;
e) Apropriar-se da produção científica de outro profissional.
Art. 17 - Ao Sociólogo deve ser asseguada a mais ampla liberdade na realização de seus estudos e pesquisas.
Capítulo III
Das relações com as entidades da
categoria e demais organizações da Sociedade Civil
Art. 18 - O Sociólogo deve defender a profissão através de suas entidades representativas, participando das organizações que tenham por finalidade a defesa dos direitos profissionais no que se refere a melhoria das condições de trabalho, à fiscalização do exercício profissional e ao aprimoramento científico.
Art. 19 - O Sociólogo deverá apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria e divulgar no seu espaço institucional as informações das suas organizações, no sentido de ampliar e fortalecer o seu movimento.
Art. 20 - É vedado ao Sociólogo valer-se de posição ocupada na direção de entidade da categoria para obter vantagens pessoais, diretamente ou através de terceiros.
Art. 21 - O Sociólogo, ao ocupar uma chefia, não deve usar a sua autoridade funcional para obstaculizar a liberação total ou parcial da carga horária do profissional que a solicite, com base legal, às instâncias superiores.
Título V
Da aplicação e cumprimento do Código de Ética
Art. 22 - A Federação Nacional dos Sociólogos, os Sindicatos e Associações Profissionais manterão Comissão de Ética para assessorá-la na aplicação e observância deste Código.
Art. 23 - A Comissão de Ética será eleita por voto secreto, de forma separada da Diretoria da entidade, tendo mandato de igual duração.
Art. 24 - Fica a critério das entidades definir sua composição de acordo com seus Estatutos aprovados em Assembléia Geral da categoria.
Art. 25 - O descumprimento do presente Código de Ética fica sujeito a penalidades desde a advertência à eliminação dos quadros da entidade, na forma dos dispositivos legais e/ou regimentais.
Art. 26 - Constituem infrações disciplinares:
a) Transgredir preceito do Código de Ética;
b) Exercer a profissão quando impedido, ou facilitar o seu exercício por quem não esteja devidamente habilitado;
c) Aos que violarem sigilo profissional;
d) Aos que tenham conduta incompatível com o exercício profissional;
Art. 27 - São medidas disciplinares aplicáveis;
a) Advertência em aviso reservado;
b) Advertência pública;
c) Eliminação dos quadros da entidade.
Art. 28 - A pena de advertência, reservada ou pública, será aplicada nos casos previstos nas alíneas “a”, “b”, “c” e “d” do Art. 27.
Art. 29 - A pena de eliminação dos quadros da entidade será aplicada:
a) Nos casos em que couber a pena de advertência e o infrator for reincidente;
b) Aos que fizerem falsa prova dos requisitos exigidos para registro profissional;
Art. 30 - Serão considerados na aplicação das penas os antecedentes profissionais do infrator e as circunstâncias em que ocorreu a infração.
Art. 31 - Qualquer Sociólogo, cidadão ou instituição poderá dirigir representação escrita e identificada aos Sindicatos, Associações Profissionais ou à Federação Nacional para que seja apurada a existência de transgressão cometida por Sociólogo.
Art. 32 - Cabe à Comissão de Ética, criada pela entidade referida no artigo anterior, analisar as infrações a este Código que cheguem ao seu conhecimento.
Parágrafo 1 - Decidindo a Comissão pela apuração dos fatos, será notificado o indiciado, garantindo-lhe acesso aos documentos e fatos componentes da acusação e a apresentação de defesa em vinte dias úteis.
Parágrafo 2 - Após o encerramento da apuração dos fatos e apresentada a defesa, a Comissão decidirá dentro de 10 dias, dando conhecimento da decisão ao Sociólogo.
Parágrafo 3 - A decisão entrará em vigor após a certificação do seu recebimento pelo profissional objeto da apuração.
Art. 33 - A não observância pelo Sociólogo à convocação ou prazos definidos no artigo precedente, implica na aceitação dos termos da representação.
Art. 34 - A partir da data da notificação da decisão da Comissão de Ética, o Sociólogo poderá recorrer a Assembléia Geral da categoria convocada para este fim, desde que sejam respeitados os Estatutos dos Sindicatos, Associações Profissionais e da Federação para a referida convocação.
Art. 35 - Compete à Federação Nacional dos Sociólogos estabelecer procedimentos quanto aos casos omissos neste Código.
Art. 36 - O presente Código somente poderá ser alterado em Congresso Nacional da categoria, cuja proposta de modificação deverá ser encaminhada às entidades para discussão com o prazo mínimo de 90 dias.
Art. 37 - Este Código entra em vigor na data da sua votação e aprovação no X Congresso Nacional de Sociólogos do Brasil.

As sete soluções radicais para o efeito estufa

NOTÍCIAS
Aquecimento Global – A revista VEJA em sua publicação de 30/12/2006, edição nº
1989, trouxe uma grande reportagem sobre este assunto, no qual enfatiza que o ano
de 2006 foi o ano em que a humanidade tomou consciência de que a crise ambiental
é real e seus efeitos, imediatos.
VEJA destaca que novas pesquisas científicas dissiparam a mínima dúvida de que o
aumento repentino da temperatura planetária se deve à ação humana, com escassa
contribuição de qualquer outra influência da natureza. Até os ecocéticos aceitam
agora a idéia assustadora de que o tempo disponível para evitar a catástrofe global
está perigosamente curto. Não há mesmo como ignorar o problema. Como uma
praga apocalíptica, as mudanças climáticas já afetam o cotidiano de bilhões de
pessoas de forma impossível de ser ignorada. Uma prévia do relatório anual da
organização Meteorológica Mundial, órgão da ONU que avalia o clima na Terra,
divulgada em dezembro, mostra que 2006 foi marcado por uma série de recordes
sombrios no terreno das alterações climáticas e das catástrofes naturais.
Pela primeira vez desde que começaram as medições, no século XIX, o termômetro
chegou aos 40 graus em diversas regiões temperadas da Europa e dos Estados
Unidos. A Somália foi castigada pelas enchentes mais devastadoras do último meio
século. A calota gelada do Ártico ficou 60.400 quilômetros quadrados menor – ou
seja, uma área equivalente a duas vezes o estado de Alagoas virou água e ajudou a
elevar o nível dos oceanos. Na China, segundo o relatório, a pior temporada de
ciclones em uma década resultou em 1.000 mortes e 10 bilhões de dólares em
prejuízos. Na Austrália, o décimo ano seguido de seca impiedosa agravou o
processo de desertificação do solo e desencadeou incêndios florestais com
virulência nunca vista. Sabe-se que o relatório final da Organização Meteorológica
Mundial, a ser divulgado em fevereiro, prevê o desaparecimento total do gelo no
Ártico durante os meses de verão já a partir de 2040. Isso pode significar a extinção
do urso-polar em seu habitat.
Todos esses transtornos são decorrência do aumento de apenas 1 grau na
temperatura média do planeta nos últimos 100 anos. Estudos estimam que, mantido
o ritmo atual, a temperatura média da Terra subirá entre 2 e 4,5 graus até 2050. O
debate científico não é mais sobre em que momento dos próximos cinqüenta anos o
aquecimento global se abaterá sobre nosso pobre planeta, mas sobre como escapar
da arapuca que nós próprios armamos para as futuras gerações. É universalmente
aceito que, para evitar a piora da situação, seria preciso parar de bombear na
atmosfera dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Esses gases, resultantes da
atividade humana, formam uma espécie de cobertor em torno do planeta, impedindo
que a radiação solar, refletida pela superfície em forma de calor, retorne ao espaço.
É o chamado efeito estufa, e a ele cabe a responsabilidade maior pelo aumento da
temperatura global.
Diante desse quadro sombrio, ganha impulso entre cientistas e políticos a idéia de
que ações pontuais, por mais bem intencionadas, podem não ser suficientes para
estancar o aquecimento gradual da Terra. Por sua magnitude, problemas globais
exigem soluções também globais. Ou seja, intervir nos processos que causam o
aquecimento do planeta é uma tarefa demasiadamente complexa para ser resolvida
com o esforço individual das nações. Ainda mais quando se sabe que nenhum país
conseguirá diminuir drasticamente as emissões de dióxido de carbono (CO2
), o
principal vilão do efeito estufa. Isso significaria frear o ritmo de suas indústrias e
usinas termelétricas., acarretando enormes prejuízos à economia. Os cientistas que
defendem as soluções globais para o aquecimento da Terra avaliam que só com
idéias que envolvem um esforço mundial se poderá reduzir o problema.
Vários megaprojetos para amenizar o efeito estufa saíram de universidades e
centros de pesquisa nos últimos anos. VEJA selecionou as sete soluções de maior
viabilidade técnica e que tiveram melhor repercussão na comunidade acadêmica.
São abordagens radicais, mas podem ser a única saída para uma situação de
emergência. Cinco delas são fruto de uma corrente científica relativamente recente
chamada geoengenharia. Os adeptos miram num cenário em que sejam
necessárias medidas urgentes para diminuir a temperatura da Terra rapidamente e
interromper, ou evitar, seqüência de catástrofes. A geoengenharia parte de um
princípio simples: para deter o efeito estufa, é preciso fazer com que menos raios
solares cheguem à terra. Assim, compensa-se o calor extra provocado pela “tampa”
de CO2 e outros gases tóxicos lançados na atmosfera pela ação humana. Os
cientistas alinhados com a geoengenharia admitem que seus projetos para “esfriar”
a Terra parecem fantasiosos e radicais por suas dimensões, mas foram todos
concebidos para ser exeqüíveis. Em caso de emergência climática, a aplicação de
um ou mais desses projetos pode ser a única forma de salvar a humanidade e o
planeta que a abriga. “Se dobrarmos a quantidade de CO2 em relação à da era préindustrial
e não tivermos o problema sob controle, talvez seja preciso lançar mão
dessas soluções. É necessário ter essa carta na manga para o caso de uma crise
planetária”, disse a VEJA John Shepherd, Diretor do Centro Tyndall, da Inglaterra,
instituto que pesquisa mudanças climáticas.
A seguir, as sete soluções radicais para o efeito estufa:
Projeto 1 – Trocar o carvão pelo átomo.
A proposta é substituir 300 usinas termelétricas atualmente planejadas no mundo
por usinas nucleares.
Ponto positivo: Numa cidade de 5 milhões de habitantes, substituir energia de
termelétricas por energia nuclear representaria uma diminuição de 22% nas
emissões de CO2. O lixo radioativo, por sua vez, não afeta o clima do planeta.
Custo: 480 bilhões de dólares
Tempo de implantação: cerca de 50 anos
Ponto negativo: Gerará 263 toneladas de lixo radioativo por ano. Ainda não se
descobriu uma forma totalmente segura de descarte deste lixo, mas pode-se
pesquisar formas de processá-los.
Projeto 2 – Enterrar os gases tóxicos
A proposta é armazenar sob o solo todo o dióxido de carbono (CO2) – o gás que
gera o efeito estufa – produzido por indústrias e usinas termelétricas. Numa
metrópole como Nova York, isso significaria deixar de lançar na atmosfera 32
milhões de toneladas de CO2, ou 36% das emissões anuais na cidade. O
aterramento de CO2 já está em fase de testes nos Estados Unidos e na Noruega.
Ponto positivo: A capacidade da crosta terrestre de armazenar CO2 é de 10 trilhões
de toneladas, o equivalente a 400 anos de emissões nos níveis atuais.
Custo: entre 900 bilhões e 1,8 trilhão de dólares
Tempo de implantação: Já está em fase de testes
Ponto Negativo: Risco do gás voltar à superfície
Projeto 3 – Colocar refletores de calor em órbita
Patrocinado em parte pela Nasa, a agência espacial americana, o astrônomo Roger
Angel concebeu o projeto de colocar no espaço trilhões de pequenos discos
espelhados de 60 cm de diâmetro cada um para desviar parte dos raios solares que
atingem a Terra. Os discos, equipados com painéis solares, seriam transportados
por 20 milhões de pequenas espaçonaves. As naves seriam lançadas de pontos
elevados da Terra e levariam 1 milhão de discos em cada viagem. No espaço, os
discos formariam uma nuvem de 100.000 quilômetros de extensão e permaneceriam
em órbita no ponto conhecido pelos astrônomos como L1, em que a gravidade do
Sol e a da Terra se encontram equilibradas.
Ponto positivo: A nuvem de discos reduziria em 2% a quantidade de raios solares
que incidem sobre a Terra. Isso deteria o avanço do efeito estufa mesmo que a
quantidade de CO2 produzida no planeta dobre nas próximas décadas.
Custo: 3 trilhões de dólares
Tempo de implantação: 25 anos
Projeto 4 – Pôr um guarda-sol no espaço
Físicos americanos do Lawrence Livermore National Laboratory propõem colocar em
órbita um gigantesco escudo redondo para bloquear parte dos raios solares que
chegam à Terra. O escudo teria de ser montado no espaço, talvez no laboratório
que a Nasa planeja instalar na Lua em 2020. Sua órbita poderia ser modificada de
tempo em tempo para bloquear os raios solares em pontos escolhidos do planeta.
Ponto positivo: O escudo conseguiria desviar de 1 a 3% dos raios solares que
atingem a Terra, eliminando o efeito estufa por várias décadas. Segundo os
idealizadores do projeto, a diminuição da incidência de raios solares ainda geraria
para o planeta uma economia de 1 trilhão de dólares por ano. Essa economia seria
conseqüência do aumento da produtividade na agricultura e da redução do número
de casos de câncer de pele causado por raios ultravioleta.
Custo: 5,5 trilhões de dólares
Tempo de implantação: 30 anos
Projeto 5: Espalhar enxofre na atmosfera
O meteorologista holandês Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel em 1995 por
demonstrar como a camada de ozônio vinha sendo destruída pela ação humana,
defende a idéia de bloquear parte dos raios solares que chegam à Terra espalhando
dióxido de enxofre (SO2) na atmosfera.
O SO2, em forma de gás, seria levado por balões até uma altitude de 25 quilômetros
do solo terrestre. Na seqüência, o gás se oxidaria, gerando ácido sulfúrico, que se
agruparia em partículas. Estas desceriam até a altitude de 11 quilômetros e se
espalhariam pelas nuvens com a ajuda do vento. As partículas refletiriam parte da
luz solar de volta para o espaço.
Ponto positivo: A temperatura média da Terra pode cair meio grau. Como o efeito
estufa tornou o planeta 1 grau mais quente no último século, teoricamente suas
conseqüências – como secas, enchentes e furacões – se fariam sentir em menor
escala.
Custo: Entre 25 bilhões e 50 bilhões de dólares
Tempo de implantação: 20 anos
Ponto negativo: ainda não foi comprovado que o enxofre não afete a camada de
ozônio
Projeto 6 – Multiplicar o fitoplâncton
A estratégia idealizada pelo centro americano de pesquisas marinhas Moss Landing
Marine – e já testada com sucesso em pequena escala – é adicionar ferro aos
oceanos para “fertilizá -los” e estimular o crescimento do fitoplâncton, conjunto de
algas microscópicas que vivem na água. Essas algas absorvem parte do CO2 – o
gás causador do efeito estufa – da atmosfera.
Centenas de embarcações espalhariam ferro, em forma granulada, por vastas áreas
dos oceanos. O fitoplâncton, assim como as plantas, usa a luz solar, o CO2 e a
água para processar a fotossíntese e se desenvolver. Ao morrer, afunda até o solo
do oceano, levando junto parte desse CO2 que permanece submerso por séculos.
Ponto positivo: Nos testes realizados pelo centro Moss Landing Marine, em 2002, o
ferro foi espalhado em duas áreas de 15 quilômetros de extensão próximo ao Pólo
Sul e depois se dispersou com as correntes marítimas. Estudos posteriores
mostraram que o fitoplâncton resultante da experiência proliferou por milhares de
quilômetros e consumiu 30000 toneladas de CO2 – o equivalente à emissão de
6.000 automóveis em um ano. Para realizar o procedimento em escala global,
bastaria espalhar o ferro por mais pontos nos oceanos.
Custo: Entre 10 bilhões e 100 bilhões de dólares
Tempo de implantação: 3 anos
Ponto negativo: Em todos os testes, parte do ferro adicionado à água se dispersou
com as correntes marítimas e a proliferação do fitoplâncton foi temporária. Por
enquanto, os cientistas afirmam não haver garantia de que, no futuro, o CO2 retido
no solo marinho não seria liberado de volta à atmosfera. Tampouco se conhece o
impacto ambiental que a adição de ferro aos oceanos teria a longo prazo.
Projeto 7 : Colocar mais água nas nuvens
O projeto do National Center for Atmospheric Research, dos Estados Unidos, em
parceria com a Universidade de Edimburgo, na escócia, consiste em pulverizar as
nuvens sobre o oceano com gotículas de água salgada para aumentar sua
capacidade de refletir os raios solares. Dessa forma, menos calor do sol alcançaria
a Terra, atenuando o efeito estufa.
Cerca de 500 embarcações se encarregariam da pulverização contínua das gotas de
água salgada em nuvens do tipo estrato-cúmulo, que cobrem quase um terço da
superfície dos oceanos. Para localizar as nuvens mais adequadas, as embarcações
contariam com a ajuda de satélites. O sistema de pulverização ainda não está
definido, mas provavelmente seria semelhante ao dos nebulizadores usados em
medicamentos.
Ponto positivo: A capacidade das nuvens de refletir a luz do sol de volta para o
espaço seria aumentada em 1,5%. Isso provocaria um resfriamento na Terra
suficiente para anular o efeito estufa mesmo que as emissões de CO2 continuem
crescendo nas próximas décadas.
Custo: 1 bilhão de dólares
Tempo de implantação: 4 anos
Fonte: VEJA – 30/12/2006 – edição 1989 – ano 39 – nº 52
Okky de Souza e Leoleli Camargo

Platão: Teoria do Rei Filósofo.

Segundo ele um Estado justo só poderia ser constituido por pessoas justas.
Para ele um governante deveria ter conhecimento para saber distinguir o "bem do mal", o "justo do injusto", por isto em seu livro "Republica" defende que o Filósofo é quem deveria governar, disse que o Rei deveria ser Filósofo e/ou o Filósofo Rei.